Suportes digitais: memória ou esquecimento?
© Rose Borschovski aka Saskia Boddeke
“Uma obra de arte, não importa quão antiga e clássica, é realmente, e não apenas potencialmente, uma obra de arte quando vive em qualquer experiência individualizada [...]” (Dewey cit. por Brandi, 2006:2).
Desta forma, toda a obra de arte é recriada, independentemente do seu suporte ou consistência material. Esta instância estética, que Cesare Brandi sobrepõe à consistência física, ganha, no cibermundo, uma importância acrescida, tanto mais que a ubiquidade e a desterritorialização relegam a dimensão histórica de tempo e lugar para um plano difuso e efémero. Por outro lado, a questão da conservação ou restauro da obra de arte está excluída pela natureza imutável da sua materialidade. Mas não será que o ciberespaço coloca questões análogas às de natureza orgânica?
Se o que subsiste para a obra de arte digital é um conjunto de informação binária dependente de um suporte e protocolo digitais, dir-se-á que a consistência material da obra de arte digital é ela própria multiplicada por um infinito número de réplicas, tantas quantas o espaço de armazenamento permitir. Platão, no diálogo Meno, reduz a memória a uma técnica de recordar a partir de uma dada informação. Esta techne de recordar “requer uma substância ou material sobre o qual trabalhar e ao qual dar forma [...]” (Caygill, 2006:53). Poderá o ciberespaço ser uma técnica de recordar a partir de um arquivo global? Estará a hierarquia associada ao arquivo a dissolver-se? (Caygill, 2006).
© Rose Borschovski aka Saskia Boddeke
À promessa de uma nova arte de memória, contrapomos a efemeridade, a contigência ou a falência dos sistemas. À reprodutabilidade da obra de arte digital, contrapomos a disseminação de falsos artísticos.
A facilidade com que se copia, manipula e se multiplica o “objecto” coloca-nos perante o perigo da transferência da monumentalidade como processo orgânico para a monumentalidade como processo cognitivo. Se com o advento da imprensa e da fotografia esse processo estava já iniciado, o ciberespaço relança a discussão sobre as potencialidades deste como suporte futuro da nossa memória colectiva.
Referências
Brandi, C. (2006). Teoria do Restauro. Amadora: Orion.
Caygill, H. (2006). Meno e a Internet: entre a memória e o arquivo. Revista NADA, 8, 52-63.


Maio 21, 2010 às 11:45 am
A criatividade humana, na sua essência, emerge sob todas as formas e espaços. Ela é livre, caótica e bela, porque é natureza, natureza do homem. Procurarão – como sempre acontece deste os primórdios da nossa memória colectiva – acorrentar a arte a regras estabelecidas por cânones tecidos entre culturas e interesses ideológicos ou económicos; em subjectividades estéticas, éticas, entre outras.
Mas a “essência da arte” não será jamais passível de apropriações individuais ou colectivas.